sexta-feira, 20 de abril de 2012



 

Carta de uma prostituta -

Eu não costumava ser assim. Eu era daquelas garotas que acreditavam em tudo que as pessoas falavam. Em todos os ‘eu te amo‘… os ‘eu estou com você’ e em todos os ‘vai ser pra sempre’. Acreditava em contos de fadas, que no fim tudo daria certo e eu teria o meu final feliz. Eu era pura e acreditava no amor…até um menino aparecer na minha vida.
No inicio foi tudo perfeito, ele me dizia coisas lindas e me levava a lugares lindos. Tinha o melhor abraço do mundo, e ali eu me sentia segura. Me dizia ‘eu te amo’ todos os dias, e a gente acabava discutindo sobre quem amava mais. Ele era a pessoa mais linda e perfeita do mundo. Eu estava completamente apaixonada por ele, e achava que nós iriamos viver juntos pra sempre...acho que esse foi a maior besteira que eu já pensei na vida! Um dia ele disse que ia estudar na casa de um amigo, mas esqueceu o caderno e eu resolvi levar a ele. Quando cheguei lá, o vi aos beijos com uma garota que me odiava. Acho que eu morri ali na hora, por dentro. Ele tentou me explicar mas eu havia visto, ali na minha frente, o garoto que eu mais amei no mundo aos beijos com uma vadia qualquer. O garoto que me fez juras de amor, o garoto que me ensinou a tocar violão e a andar de skate. Não precisava de explicações, eu tinha visto tudo. Só sai dali aos prantos, fui pra casa de táxi e me tranquei no quarto…de onde eu não sai durante semanas. Meus pais fizeram de tudo para que eu saísse dali, ou comesse alguma coisa, mas tudo que eu queria era ir embora…ir embora dali, daquela casa, daquela cidade, e se fosse preciso, daquele país. Queria ir pra um lugar onde os meus sonhos pudessem ser realizados. Onde eu não sentisse tanta dor, e onde aquele tão sonhado “amor” existisse de verdade. Eu só queria sair dali, eu precisava sair dali, então decidi ir embora.
Não, eu não me matei. Só sai vagando pelas ruas, sem nenhum rumo, durante a madrugada inteira. Quando estava quase amanhecendo encontrei uma menina, com uma mini-saia, um top e um salto alto de uns 15 centímetros. Eu a observei e vi que vários homens passavam de carro e mexiam com ela. A garota estava ali para se prostituir e aquilo me pareceu interessante, muito interessante. Me aproximei e ela me contou tudo…disse que se prostituia para ganhar dinheiro para sustentar os quatro filhos e que nenhum deles tinha pai. Bom, ter até tinham, mas saber onde eles estavam, parecia impossível. Ela me chamou para fazer parte disso, e eu aceitei…precisava daquilo, precisava sair daquele meu mundinho medilcre e infantil, eu só…precisava.
De imediato ela me levou a casa do suposto “chefe” e ele gostou muito de mim. Eu tinha um rostinho de boneca, e ele disse a mim que os homens gostam disso. No dia seguinte já comecei a trabalhar.
No primeiro dia foi complicado. Não consegui cumprir tudo que deveria e o cliente saiu insatisfeito. Mas isso foi só no primeiro dia, porque depois do segundo, quando vi que estavam me desejando, comecei a gostar bastante do que fazia.Necessitava cada dia mais daquele desejo que eles sentiam por mim. Entre todas as meninas, eu era a mais procurada. A sensação de ser desejada era a melhor coisa do mundo. Só com o dinheiro dos finais de semana consegui comprar uma casa enorme, com piscina e tudo. Andava sempre bem arrumada e o meu quarto era cheio de jóias. A minha vida era ótima…sempre desejada por vários homens, com muito dinheiro e jóias. Até um idiota aparecer no meu caminho, dizendo que tinha se apaixonado por mim. Na hora eu só ri da cara dele e disse “apaixonado por mim?você me ama? tu tem noção de quantos homens me desejam assim como você? eu tenho tudo que eu quero, meu bem. Não preciso de um filho da puta como você pra ser feliz.Por favor, ache alguma garotinha inocente por aí e faça ela sofrer, porque a mim, querido, você não vai conseguir. Agora vem aqui logo, tu acha que eu tenho só você de cliente hoje? Muitos estão me esperando lá fora ainda. E na boa, se tu disser que me ama mais uma vez, eu sou capaz de quebrar você inteiro, ta entendendo? Eu não acredito no amor. Essa porra aí não existe, é só pra fazer as garotinhas de idiotas. A mim você não engana!” mas depois, eu me senti um pouco ruim, porque o garoto nem conseguiu fazer a parte dele...acho que o magoei. Mas já tinha tempo demais que meu coração estava desligado, re liga-lo agora seria burrice minha. E assim vivi por muito tempo, até descobrir que havia pegado aids e vir parar aqui nesse lugar. Bom, a minha vida não foi como meus pais queriam e nem como eu sonhara. Eu queria ser médica, sabia? pediatra de preferência, adorava crianças! Até hoje não entendo como consegui fazer tantos abortos assim, se quando adolescente, crianças eram a minha paixão. Até hoje eu não entendo tanta coisa…era pra tudo ter sido diferente. Era pra eu ter sido médica, ter tido um casal de filhos e um ótimo marido. Era pra eu chegar em casa, meu marido estar lendo o jornal e minha pequena menina vir me abraçar. Era pra tudo ser diferente, mas não foi…graças aquele menino, aquele imprestável menino, que conseguiu acabar com o que um dia eu chamei de vida.

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